sexta-feira, 23 de junho de 2017

As Redes Sociais e Nós


Redes sociais. Redes, o que você entende por rede? Aquela de pescador? Aquela de se embalar? Quase isso, não fosse pela função. Rede de redes sociais é uma rede de pescador que abrange um número cada vez maior de pessoas, é a rede que conecta, que liga, pessoas de diversos lugares com uma velocidade impressionante porque imediata. Aquele velho papo: o que acontece no outro lado do mundo, fica-se sabendo agora-já, nesse mesmo instante, no mesmo momento em que este texto é escrito, no mesmo momento em que este texto é lido. Cabe a você, leitor, decidir qual o mais importante: ler a informação sobre o que está acontecendo agora no outro lado do mundo ou ir até a última palavra deste texto. Redes sociais, rede de embalar? O que é o embalo da rede, da rede de se deitar, senão uma maneira de descansar, de se distrair com o cansaço que brinca e deixa nosso corpo molenga; então, redes sociais como rede de se embalar é o entretenimento: muita informação, a todo segundo, sobre tudo, sobre muita coisa inútil, muita coisa efêmera, que passa... passou, passou que ninguém viu. Mas quase ninguém vê mesmo. Tem que ser com rapidez, ninguém quer gastar mais de dez minutos em um assunto, em um click, ninguém está na rede para ficar 24 horas num click. A gente quer clicar em outras coisas, a gente quer clicar em tudo, a gente quer diversão, “A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte/A gente não quer só comida/A gente quer saída para qualquer parte/A gente não quer só comida/A gente quer bebida, diversão, balé/A gente não quer só comida/A gente quer a vida como a vida quer”. A gente, no fim das contas, nem sabe o que quer, a gente se deixa levar, de uma informação à outra, pulando de galho em galho, igual homem primata; a gente esquece por que tá aqui, a gente esquece por que tá lendo esse texto, a gente enjoou de ler esse texto, a gente quer sair desse texto pra ir ver outras coisas. Agora a gente quer rir. Já riu. A gente quer rir mais. Cadê? Ah, agora  a gente quer ver notícias sobre política. Que merda! Nunca ninguém fica preso. Ah, faça-me o favor, meu amigo, prisão domiciliar não é prisão! Todos nós, na verdade, estamos presos em casa. A gente sai às vezes pra se distrair, mas volta pra casa e fica enclausurado, entra na internet, vê as notificações das redes sociais... Já ia esquecendo! Já ia me esquecendo de postar aquela foto! Joga uns efeitos nela, edita a foto, claro, pra ficar legal, pra mostrar que eu tô legal, que eu tô vivendo, que eu to curtindo... QUANTAS CURTIDAS JÁ? Tem que ter mais! Tão curtindo! Tão curtindo a minha foto em que eu tô curtindo, mostrando que não fico preso dentro de casa, apesar de estar preso, apesar de estar trancafiado e entorpecido nessa droga de rede social, apesar de estar preso nesse modo de vida, apesar de estar preso a likes, compartilhamentos e memes... são muitos memes, eu acho muita graça, eu acho muita graça, MUITA GRAÇA! Eu adoro me embalar nessa rede! Rede boa! E no fim das contas, a gente tá preso; no fim das contas, a gente é peixe, a rede nos prende tais quais peixes, peixes imbecis... peixes domesticados... peixes... OLHA! Que vídeo fofinho de peixinho... vou compartilhar! 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sangue nas Fitas


- Eu seria vagabundo demais se dissesse que te amo.
- Minta. Acho que as mentiras são necessárias pra sustentarem o amor.
- Mas se eu mentisse...
- Vamos, deixe de ser moralista! Minta. Ame. Minta!
- Isso é mesmo importante pra você?
- Sim, você sabe.
- Isso me assusta... mentir pra você me assusta.
- Mas quantas vezes você já não mentiu durante todos esses anos? A diferença é que agora será uma mentira consentida por mim.
- Cara, eu não sei. É difícil pra mim.
- Saiba que é tão difícil pra você quanto pra mim. Mas é necessário. É aquilo que as pessoas chamam de mal necessário. Minta! Diga que me ama!
- Eu... Eu...
- Você consegue! Vamos!
- Eu te... oh... eu te...
- Falta só o principal! Vamos!
- Oh... me desculpa... eu não consigo...
- Tente! Minta! Vamos!
- Desculpa, mas eu não te amo o suficiente pra mentir pra você.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Esse Bigodudo Merece Respeito

"Para que levar a vida assim tão a sério?
Afinal, a vida é mesmo uma aventura 
da qual não sairemos vivos"
(Belchior - Rock Romance de Um Robô Goliardo*)


Esse bigodudo merece respeito! Esse rapaz latino americano merece ser valorizado! Um dos grandes problemas dos artistas geniais brasileiros é terem nascido no Brasil. Eu amo o meu Brasil. Mas o Brasil dificilmente ama seus artistas. E são artistas que não pedem nada em troca, mas que carregam implicitamente ou explicitamente na sua arte esse jeito tropical e culturalmente diversificado de ser. E Belchior é um dos nossos grandes gênios da arte que possui uma obra musical muito inteligente e prazerosa de se ouvir. Sua sonoridade não se limita a uma tendência musical, Belchior transita entre o cantar nordestino e o cantar quase falado de Bob Dylan, do forró do mestre Luiz Gonzaga à guitarra de Chuck Berry. Essas misturas clandestinas, que ultrapassam fronteiras, transitam na obra desse cearense com uma gama intelectual e cultural ricamente incríveis.


"Cenas dos Próximos Capítulo" que não me deixa mentir, é um álbum que condensa Luiz Gonzaga e a ficção científica da robótica e da eletrônica que, ao passar dos anos, vão deixando de ser ficções e estão se tornando realidade. Esse álbum é do ano de 1984, inserido em pleno estouro do chamado BRock, a era de ouro do Rock Nacional. Belchior, menino prendado e vivido, que ficou nacionalmente conhecido em 1976 com seu álbum "Alucinação", não deixou cair a peteca, não fez feio diante da moçada que nascia com suas bandas de rock na década de oitenta. Nesse disco o bigodudo deu uma aula de boas composições e interpretações pra juventude. Um LP com letras inteligentes e fascinantes, como é de praxe do cearense, uma sonoridade rock-brasileira-nordestina-eletrônica/robótica à maneira Belchior. Enfim, sem mais delongas, apreciem por vocês mesmos a arte peculiar de Belchior! Recomendo!

*link da música da citação do começo do texto: https://youtu.be/YhHYErr2GD8





segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Tom Zé e O Facebook

- "TRIBUNAL DO FEICEBUQUI", de 2013, obra do eterno e mais genuíno tropicalista, Tom Zé, que foi esquecido por anos na nossa música brasileira e teve que ser resgatado das profundezas do obscurantismo por um estrangeiro, o líder do The Talking Heads, David Byrne, que mostrou para o mundo a genialidade desse baiano que foi aplaudido em diversos países da Europa. Tom Zé coloca nesse EP sua crítica ferrenha ao Facebook que se transformou num tribunal onde qualquer um fala o que quer sem o menor rigor, sem o menor respeito, sem medir as consequências, se escondendo por detrás de um perfil virtual. É como Umberto Eco disse numa entrevista: "A internet deu voz aos imbecis". "FACEBOOK DA SANTA SÉ", um grande tribunal virtual. 
O EP (Extended Play) conta com composições, arranjoss e execuções feitas pelas bandas O Terno, Trupe Chá de Boldo, Filarmônica de Pasárgada e com os músicos Tatá Aeroplano e Emicida, contando ainda com Mallu Magalhães assinando o desenho da capa do álbum.
Recomendo que ouçam essa pérola da música brasileira!


FAIXAS:
1. Tribunal do Feicebuqui (Marcelo Segreto/ Gustavo Galo/ Tatá Aeroplano/ Emicida)
2. Zé a Zero (Tom Zé/ Marcelo Segreto/ Tim Bernardes)
3. Papa Francisco, Perdoa Tom Zé (Tim Bernardes/ Tom Zé)
4. Taí (Joubert de Carvalho/ Tom Zé/ Marcelo Segreto)
5. Irará Iralá (Tom Zé)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Passageiros de Trens Diferentes



Olha
Olha o olhar perdido
Olhar vago
Olhar de quem olhou no fundo do profundo do amor mais fundo que a vida lhe concedeu
Pensou que dessa vez ia dar certo
E foi pior do que todos os outros casos
Mais uma noite com a cabeça longe
Eu trago o peito tão marcado de lembranças do passado e você sabe a razão
Esse olhar
Distante
Jovem demais pra viver como se o mundo acabasse toda manhã na hora de acordar
- Deixa aquele livro aí na estante.
- Eu pensei em ler...
- Você nunca leu. Se não leu agora, não vai ler depois.
- E se eu me arrepender?
- Se arrepender de não ter lido nunca o livro?
- Me arrepender de ter te deixado...
- Se você não se arrependeu agora, não vai se arrepender depois.
- Eu levo a impressão de que já vou tarde, mas que nunca deveria ir.
- Eu queria que a gente se perdesse nos lençóis de todas as camas que a gente deitou.
- A vida é sem fantasia.
- Adeus. 
Eu trago o peito tão marcado de lembranças do passado e você sabe a razão

sábado, 23 de julho de 2016

Cultura, Contracultura e Respeito Cultural


A cultura de um povo é a sua mentalidade. Isso quer dizer que o pensamento de um povo é formado pela sua cultura. A cultura é a produção de um povo, ela é constituída essencialmente de crenças, regras morais, comportamentos, hábitos. Basicamente, a cultura é impositiva, pois estabelece o certo e o errado, a verdade e a mentira. A pergunta é: POR QUE A CULTURA DEVE SER ACEITA E ASSIMILADA? Para responder a esta questão, temos que, primeiro, solucionar uma outra: QUEM ESTABELECE A CULTURA? COM QUE DIREITO A CULTURA É ESTABELECIDA? Essas perguntas querem saber simplesmente quem é que estabelece uma cultura e com que direito se pode dizer que esta cultura pode ser estabelecida?


O palco para que uma cultura se estabeleça é o espaço e o tempo. Por isso, no mundo, temos diversas culturas estabelecidas nos múltiplos espaços que vão se transformando no decorrer do tempo. Portanto, cada cultura tem seus costumes, tem suas regras, tem seus certos e errados. O povo mesmo estabelece sua cultura no momento em que estabelece certas normas de comportamento que devem ser seguidas e interiorizadas. Não existe um parâmetro, não existe um modelo absoluto que rege a forma que uma cultura deve ser estabelecida. Ou seja, aqueles que estabelecem uma cultura, não estão se baseando em nenhum modelo absoluto e universal de cultura, simplesmente estão fazendo uso dos costumes anteriores, de seus antepassados, estão aceitando certas normas e transformando outras para, daí, surgir a sua cultura. Isso quer dizer que uma cultura, quando se estabelece, ela deve ser aceita por seus adeptos de uma forma inquestionável. É assim e pronto. É assim porque sempre foi assim. É assim porque devemos respeito ao passado. Conservar os costumes dos antepassados é uma questão de respeito. Convenhamos que esses são os tipos de argumentos utilizados por quem defende uma cultura. Porém são argumentos insustentáveis. E por serem insustentáveis, devem ser questionados! Então uma cultura não deve ser aceita como válida sem que haja, anteriormente, uma reflexão. Precisamos mudar sim uma cultura quando ela é nociva! Mudar fazendo a sua correção. E a contracultura é basicamente isso, essa revolta contra a cultura preestabelecida. Nós, enquanto seres racionais, precisamos refletir sobre as normas da nossa cultura. Às vezes precisamos ser adeptos da contracultura para colocarmos em discussão certas normas culturais impostas.


É papel de cada ser humano ser crítico diante da cultura que lhe é estabelecida. Não podemos simplesmente receber uma cultura como se ela fosse a verdade absoluta, não podemos receber uma cultura como se não houvessem outras formas de pensar, não podemos receber uma cultura sem usar nosso senso crítico sobre o que ela nos diz e o que ela requer de nós. A palavra respeito foi esquecida, foi sufocada pelo certo e errado dos ignorantes. O respeito, que deveria ser a base de toda cultura, está sendo suprimido pelas próprias pessoas que se prendem a hábitos de certo e errado que são intolerantes. Cada um de nós é um universo, cada um de nós tem suas opiniões, isso faz parte da individualidade de cada ser humano, então não podemos achar que nossa posição religiosa, política, ideológica, o que for, seja a verdade absoluta. Temos o direito de defender nossa posição, mas não temos direito de desrespeitar o outro. Podemos nos posicionar contra o outro, mas nunca usando nossa cultura como argumento de que a cultura do outro é errada. São pontos de vista. Segundo a nossa cultura, a do outro pode ser errada. Mas isso é segundo um ponto de vista baseado numa cultura. Então, é simples: sejamos mais críticos. Existem outras formas de se pensar. Sejamos sempre impessoais e vamos em busca de conhecimento sempre, conhecimento de outras culturas, vamos tirar o melhor de cada uma delas.

domingo, 17 de julho de 2016

TROPICÁLIA OU PANIS ET CIRCENCIS


Talvez vocês nunca tenham ouvido falar. Entrou pra história. Fez história. Mudou a história. Mexeu com as estruturas. Balançou. Remexeu as estruturas mentais das pessoas daquele contexto temporal e de toda a história posterior a esta obra. É uma obra. De mais de uma pessoa, de mais de um artista, mas liderada por baianos. Esta é minha teoria: a Bahia é o berço cultural mais rico de todo nosso Brasil. Deslocaram-se da Bahia, foram à São Paulo, deixaram sua marca. Marcou. É um marco não só para a música popular brasileira, mas para tudo que se produz em termos de arte neste nosso país tropical. Tropicalismo. Caetano Veloso e Gilberto Gil. Encabeçaram o movimento revolucionário da arte brasileira. Quem é o restante? Respeite! GAL COSTA, TORQUATO NETO, TOM ZÉ e OS MUTANTES (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias).

Caetano e Gil
Gal Costa
Tom Zé
Torquato Neto
Os Mutantes

Misturando popular com erudito, comendo o que vinha de fora e vomitando à maneira brasileira, debochando do bem comportado e certinho, sendo rebelde por ser cabeludo, sem gravata, sendo feliz. É mais ou menos assim o som desse disco. É mais que esse menos que eu disse. O maestro Rogério Duprat fazia os arranjos mesclando o cult ao pop, o concerto ao desconserto sonoro desses artistas, vomitando o TROPICALISMO.

Rogério Duprat

RECOMENDO QUE OUÇAM O ÁLBUM!

(Tropicália ou Panis et Circencis, 1968)