sábado, 23 de janeiro de 2016

Tudo Bem?


- Oi.
- Oi.
- Tudo bem?
- Tudo bem.
- Que bom.
- Sim, que bom. Mas... você perguntou querendo realmente saber se tá tudo bem?
- Sim, claro! Se eu perguntei é porque eu realmente quero saber.
- Ah! Então você deve saber que nunca tá tuuudo bem.
- Sim, eu sei que nunca tá "tuuudo" bem.
- Pois é, então se você sabe que nunca está tudo bem e quer saber realmente se tá tudo bem, por que você não se preocupou em saber o que não tá bem?
- Desculpe, mas entendi.
- Presta atenção: você perguntou se tá tudo bem, certo?
- Sim, sim, perguntei.
- Você realmente quer saber se tá tudo bem, certo?
- Sim, eu realmente quero saber.
- Eu respondi que tá tudo bem.
- Foi, você disse que tá tudo bem.
- Mas você sabe que nunca tá tuuudo bem.
- Sim, você tem toda razão, todos sabemos que nunca tá tudo bem.
- Pois então, você disse que quer saber realmente se tá tudo bem. Eu disse que tá tudo bem. Mas você sabe que não tá. Então, por que não perguntou o que não tá bem se quer realmente saber se tá tudo bem?
- É, você tá certo.
- Pois é.
- Tá okay... vamos começar de novo. Oi.
- Oi.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Que bom.
- Sim, que bom. Mas você quer realmente saber se tá tudo bem?
- Não.



(Matheus Queirozo)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um Doutor Sofista

Por Marco Bezerra*



Inicialmente a ideia central era uma leitura descontraída. O livro é escrito por dois autores, Clóvis de Barros Filho (Bacharel em Filosofia e Direito pela USP) e Júlio Pompeu (Doutor em Psicologia, professor de Ética do Departamento de Direito na PUC- Rio). Títulos como o doutorado não garantem explicações coerentes sobre questionamentos filosóficos. Não que seja uma regra, mas pessoas não formadas em filosofia têm grandes possibilidades de falarem besteiras, a colocação errada das palavras em um discurso, por exemplo. Uma exceção a essa regra foi o grandíssimo Benedito Nunes – professor de filosofia na Universidade Federal do Pará –, formado em direito, mas com uma intelectualidade apurada em filosofia. Com base nisso será feito ressalvas pontuais sobre o despreparo do doutor em Psicologia, Júlio Pompeu. Deixo registrado minha admiração pela habilidade em sintetizar assuntos complexos e pela vocação em ministrar aulas de Clóvis de Barros Filho.
No terceiro capítulo de Júlio Pompeu, o sétimo do livro, o seguinte trecho: “Tudo o que é justo é também belo e bom. Esta sentença é lugar comum entre os antigos gregos. Platão, por exemplo, a cita como argumento na última parte do Banquete, quando Sócrates, para contrapor-se aos discursos até então proferidos sobre Eros – o amor -, afirma que a deusa não é bela e, por isso, também não pode ser boa e nem justa. (...). À primeira vista, esta associação de justiça com beleza e bondade para nós, que não somos gregos antigos não tem nada de óbvia. É, ao contrário, muito estranha. Imagine o quanto é absurdo considerar que alguém seja bom e justo só por ser bonitinho. Ou o contrário, que alguém seja indigno de confiança ou necessariamente mau só porque é feioso. ” (P. 195 e 196). O que o doutor Júlio Pompeu desconhece é que no período antigo os gregos associavam beleza também aos gestos, as atitudes, por exemplo, não sujar o espaço público é considerado uma bela atitude. Fiquei curioso para saber qual tradução da obra de Platão Júlio Pompeu se baseou. Ainda no sétimo capítulo do livro me chamou atenção outra deselegância do doutor, o menosprezo. Pessoas como Júlio Pompeu acham que desprezar é sinônimo de “ser crítico”. O respeito a uma obra importantíssima para a construção do pensamento ocidental, como A República de Platão deveria ser enfatizada apesar de alguma eventual discordância. Se a intenção é passar uma imagem de crítico, antes de mais nada, admirável seria a fundamentação de tal posicionamento. Anteriormente, o doutor estava falando sobre a Alegoria da Caverna – uma metáfora para explicar que a verdade reside no conhecimento filosófico. Talvez ele não saiba o que quer dizer essa figura de linguagem. Segue o fragmento “(...). De repente, um destes homens – sabe-se lá o porquê – se vê livre das correntes. Ele volta para a entrada da caverna, mas não vê nada, pois seus olhos, que nunca viram luz tão intensa, doem. ” (P. 202). O fato de ter se libertado das correntes foi a forma, metaforicamente, de dizer que o homem livre ao buscar o conhecimento verdadeiro é impulsionado pela curiosidade do saber. O homem, então solto, se depara com a luz do sol, a luz da verdade que no primeiro momento dói, por ir contra ao que se acreditava antes.

No último capítulo na página 222, o doutor Júlio Pompeu usa o termo idiota e não sabe seu significado. “(...). Todas as regras de comportamento que, muitas vezes, requerem disciplina ou repressão dos desejos para seu cumprimento. Assim que aquele que em dia de frio vence a cama quente e aconchegante, levanta-se e congela no chuveiro, come coisas amargas e tristes e sorri feito um idiota depois de bater o carro, tem qualidade de vida. ” O idiota é o apolítico, isto é, aquele que não sabe viver em comunidade, em outras palavras, o indivíduo, e não tem relação com supressão de desejos. 
Com todo respeito, coitados dos alunos da disciplina Ética no departamento de Direito da PUC do Rio de Janeiro que serão formados. Erros repassados – a primeira e única obra que leio de Júlio Pompeu -  e como consequência, uma quantidade absurda de advogados expondo pensamentos incoerentes e empregando palavras erradas por aí a fora. 

*Marco Bezerra é um tranquilo estudante de Filosofia da Universidade Federal do Pará e um inconformado diante de equívocos filosóficos. Nascido em 1989, na cidade de Belém do Pará, Marco está sempre observando o que é dito sobre filosofia e esse texto "Um Doutor Sofista" é sua estreia aqui no Blog Eu Vomitando.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Jorge Mautner - O Protótipo da Tropicália

Jorge Mautner conheceu Caetano Veloso e Gilberto Gil na época em que os dois baianos foram exilados em Londres, em 1969. Lá firmaram uma intensa e artística amizade. Caetano ouviu Jorge Mautner cantarolar uma múscia chamada O Vampiro e ficou apaixonado pela estética simples e ao mesmo tempo estrondosa de Mautner. Tal música, anos mais tarde, é gravada por Caetano em seu disco antológico chamado Cinema Transcendental, de 1979.
(Cinema Transcendental - Caetano Veloso - 1979)



O Vampiro

Eu uso óculos escuros
Para as minhas lágrimas esconder
Quando você vem para o meu lado,
As lágrimas começam a correr

Sinto aquela coisa no meu peito
Sinto aquela grande confusão
Sei que eu sou um vampiro
Que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando
Porque é que eu faço as coisas assim
E a noite de verão ela vai passando,
Com aquele cheiro louco de jasmim

E fico embriagado de você
E fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue já não corre,
Não, não, corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canção cantando
Todo o amor que eu tinha por você
Você ficava escutando impassível;
Eu cantando do teu lado a morrer

Ainda teve a cara de pau
De dizer naquele tom tão educado
«oh, pero que letra tan hermosa,
Que habla de un corazón apasionado!»

Por isso é que eu sou um vampiro
E com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos
E das meninas que eu encontro

Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida
Que deixa na tua carne aquela ferida

E na minha boca eu sinto
A saliva que já secou
De tanto esperar aquele beijo,
Aquele beijo que nunca chegou

Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia
Que tem a lua e o sol do meio-dia.


A música mais conhecida de Jorge Mautner é Maracatu Atômico, que também foi regravada por Chico Scince & Nação Zumbi.


Maracatu Atômico

Atrás do arranha-céu tem o céu, tem o céu
E depois tem outro céu sem estrelas
Em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva
Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

No meio da couve-flor tem a flor, tem a flor
Que além de ser uma flor tem sabor
Dentro do porta-luva tem a luva, tem a luva
Que alguém de unhas negras e tão afiadas se esqueceu de por

No fundo do pára-raio tem o raio, tem o raio
Que caiu da nuvem negra do temporal
Todo quadro-negro é todo negro, é todo negro
E eu escrevo o seu nome nele só pra demonstra o meu apego

O bico do beija-flor beija a flor, beija a flor
E toda a fauna aflora grita de amor
Quem segura o porta-estandarte tem arte, tem arte
E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico



Gil e Caetano foram os idealizadores, precursores e realizadores de fato do mais barulhento e rebelde movimento estético que ocorreu no Brasil em termos de letra e música, chamado Tropicalismo, anunciado em 1967 através das músicas Alegria, Alegria (de Caetano) e Domingo no Parque (de Gil). O movimento teve sua concretização em 1968 com o disco histórico chamado Tropicália ou Panis et Circencis, que reunia, além dos dois mentores baianos, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé; os poetas Capinam e Torquato Neto, além do maestro Rogério Duprat. 
(Tropicália ou Panis et Circencis - 1968)


O fato é que Mautner pode não ter participado de forma ativa desse movimento, mas sua arte, suas letras, sua produção estética é totalmente descomprometida com o comum, é totalmente inovadora. Mautner é um artista peculiar com o sentido mais peculiar da palavra; Mautner é o artista de linguagem própria, de linguagem que não explica, que apenas diz, e ao dizer surpreende, surpreende abrindo brechas para o múltiplo de interpretações que podem nascer da subjetividade mental de cada um que aprecia sua arte. Sua arte é a arte do incomum, onde o simples é visto por uma ótica de tal modo incomparável que só podemos dizer que o mundo é visto por Mautner por uma ótica de Mautner. Por isso ele é considerado o artista que rompe com a estrutura, que vai além de seu tempo, que não faz arte para agradar ninguém, ele apenas vomita o que enxerga quando observa o simples. Disso se diz que Mautner é o primeiro tropicalista, mesmo que isso não seja oficial, mesmo que a história possa negar isso. Aquele que entra em contato com Jorge Mautner percebe que ele é sim o prototropicalista.
Por isso, quero vos deixar a trilha sonora do filme, que recomendo que assistam, chamado Jorge Mautner - O Filho do Holocausto de 2012 escrito e dirigido por Pedro Bial e Heitor D’Alincourt.



Sem Ti



Esses amores só lhe dão
solidão,
alguém me disse.
Como é difícil construir
um edifício de sonhos
e ter que destruir.

Meu coração se senta e sente sentir
que se sente sem ti
Sem ti
A dor me dói porque eu sinto sentir
que eu me sinto sem ti
Sem ti

A sua manha
amanhã de manhã
de manhã de amanhã...
não vou mais ter.
Queria um disco de amor
ou disco voador
pra mandar voar a dor.

Meu coração se senta e sente sentir
que se sente sem ti
Sem ti
A dor me dói porque eu sinto sentir
que eu me sinto sem ti
Sem ti


(Matheus Queirozo)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Em Cada Manhã Eu Encontro Um Pouquinho do Jeito Que É Somente Seu


Te esquecer,
Como posso te esquecer,
se em cada manhã eu encontro um pouquinho do jeito que é somente seu?

Te negar,
Como posso te negar,
se o pulsar do meu eu se impregna do teu e negar-te seria me anular?

Pra que brigar,
se esqueceste suas roupas em minha gaveta e a chave a gente perdeu?


(Matheus Queirozo)

A Água Viva Chamada Clarice

"Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração"
(Clarice - Caetano Veloso)
Falar de Clarice Lispector é difícil, ela não cabe em rótulos. É uma escritora que não foi feita para todos os leitores. Sua obra é de uma introspecção tamanha que já foi considerada uma escritora hermética, de difícil compreensão. Clarice cria uma atmosfera quase que metafísica em sua obra no sentido de que não é uma autora que trata de fatos históricos, não trata de uma cronologia linear de sucessão de fatos obrigatoriamente ordenados, onde uma tal desordenação provocaria o desentendimento de sua obra. Clarice é uma autora que está além do entendimento.

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada" (LISPECTOR, Clarice. Água Viva. São Paulo: Círculo do Livro, 1973, página 23).

A obra de Clarice Lispector não se compreende: lê-se.
Numa das minhas andanças pelas bibliotecas da vida, encontrei uma que me surpreendeu fortemente. Nela tinham obras muito difíceis de serem encontradas em livrarias tanto de usados quanto de novos. Romance, filosofia, sociologia, poesia, praticamente tudo que é de meu interesse tinha lá. Essa é uma daquelas bibliotecas que você se torna frequentador assíduo sempre que arruma um tempo. Uma biblioteca rica! Nela, andando por entre as estantes, encontrei inúmeros livros de uma autora que, confesso, nunca tive coragem de ler. A palavra é essa mesma: coragem. Nunca ousei ler Clarice Lispector por falta de coragem. Seu nome sempre me despertou profundo interesse, mas, ao mesmo tempo, medo de lê-la. As edições presentes nessa biblioteca eram muito bem feitas, esteticamente bonitas, e conseguiram fazer com que eu ficasse só naquela prateleira, folheando aquelas densas páginas lispectorianas. Até que li um título que me fez lembrar de uma música de Raul Seixas, Água Viva. Achei interessante um livro se chamar Água Viva. Achei poético. Naquele instante, naquela estante, abri o livro e juro que desde que comecei a ler a primeira página não consegui mais parar! Dei um jeito de levar o livro pra casa, não roubei, fiz seu empréstimo. Fazia muito tempo que não lia tão dedicadamente um livro como li Água Viva. Fazia muito tempo mesmo que não me envolvia de corpo e alma em uma obra. Aquele livro me engoliu, do início ao fim. E a partir dali, tornei-me um leitor de Clarice Lispector.
Água Viva de Clarice é uma narrativa poética, toda feita em primeira pessoa. Não encontramos diálogo. É um monólogo. Quem sabe um diálogo da personagem consigo mesma? Não é de se descartar tal possibilidade. É uma narrativa que não segue roteiros. Uma narrativa que segue a ordem da espontaneidade: “Escrevo-te em desordem, bem sei. Mas é como vivo” (LISPECTOR, Clarice. Água Viva. São Paulo: Círculo do Livro, 1973, páginas 86, 87).

É um romance que possui uma narrativa poética que nos mostra uma pintora. Qual seu nome? Não nos e dado o conhecimento. Entretanto, essa pintora se põe a trabalhar, nos instantes em que se sucedem, não com pincéis e tintas, mas com palavras e papéis. No decorrer do livro, ela vai falando sobre quase tudo que o leitor imaginar, sobre suas vivências, seus pensamentos, suas impressões, suas crises, sua insônia - cuidado, insônia contagiante -, seus sentimentos: “Esta é a vida vista pela vida” (idem, página 13).
Ela (ela quem? a personagem pintora ou Clarice Lispector? O fato é que criador e criatura se confundem e não se sabe quem é quem) escreve o livro todo sem se deter num momento, ela pinta nas letras os instantes que se sucedem incessantemente. O livro é quase que um louvor ao instante: “Isto não é história porque não conheço história assim, mas só sei ir dizendo e fazendo: é história de instantes que fogem como os trilhos fugitivos que se veem da janela do trem” (idem, página 87). Ela escreve para alguém, no entanto alguém que nunca nos é revelado. Assim, ela diz para seu possível remetente: “Também tenho que te escrever porque tua seara é a das palavras discursivas e não o direto das minhas pinturas” (páginas 10, 11); “Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante” (página 13); “Tente entender o que pinto e o que escrevo agora. Vou explicar: na pintura como na escritura procuro ver estritamente no momento em que vejo” (página 90).

O livro todo é uma viva espontaneidade que salta aos olhos, onde a vida vai correndo em cada letra, em cada palavra, em cada frase, tudo vai correndo e o leitor se envolve de uma maneira ofegante, o leitor fica quase sem respirar de tanto correr junto à personagem que idolatra o que existe em cada instante e idolatra o eterno passar desses instantes. O próximo segundo é sempre imprevisível. O próximo momento é sempre indomável, ele escapa a qualquer planejamento, foge das mãos de quem tenta segurá-lo, e esse é o gostoso da vida, aí consiste a vida. O gostoso de ler Clarice Lispector é que sua narrativa é viva e flui como água.



sábado, 7 de novembro de 2015

Racionalismo Versus Empirismo e a Resolução Kantiana Dessa Problemática do Conhecimento

I


Discutir Racionalismo e Empirismo é estar discutindo dentro de uma parte da Filosofia chamada Teoria do Conhecimento. E o que seria isso? Basicamente, Teoria do Conhecimento é a parte que investiga o que é a verdade, o que é o conhecimento, qual sua origem e quais seus elementos constituintes. Dentro dessa gaveta do armário chamado Filosofia, estão diversos pensamentos e teorias que divergem entre si. Podemos dividir essas teorias em duas partes: as racionalistas e as empiristas. Cada qual responde o que é o conhecimento à sua maneira. São correntes opostas no jogo da Filosofia.

Mas o que é o Racionalismo e o Empirismo? O que significam?

Terminologia das palavras:
Racionalismo: deriva do latim ratio, que significa razão.
Empirismo: latim empiricus, “médico com experiência”; do grego empeirikós, que significa experiente, de empeiria, “experiência”.

Segundo o livro Café Philo, vários autores, páginas 23 e 25:

"Racionalismo: doutrina que atribui à razão o poder de conhecer a verdade".
"Empirismo: doutrina segundo a qual a fonte de todo conhecimento está na experiência".

Segundo o Dicionário Básico de Filosofia de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes, páginas 84 e 233:

"Racionalismo: doutrina que privilegia a razão dentre todas as faculdades humanas, considerando-a como fundamento de todo conhecimento possível. O racionalismo considera que o real é em última análise racional e que a razão é portanto capaz de conhecer o real e de chegar à verdade sobre a natureza das coisas".
"Empirismo: doutrina ou teoria do conhecimento segundo a qual todo conhecimento humano deriva, direta ou indiretamente, da experiência sensível externa ou interna. Frequentemente fala-se do 'empírico' como daquilo que se refere à experiência, às sensações e às percepções, relativamente aos encadeamentos da razão".


São correntes situadas na Modernidade, portanto, falar de Racionalismo e Empirismo é falar de uma discussão moderna. Será mesmo? Se analisarmos bem a história da Filosofia, perceberemos que, desde quando Filosofia é Filosofia, existem dois tipos de pensamentos, contrários entre si, que levantam grandes discussões sobre a origem do conhecimento e o que seja a verdade. Podemos dizer, com algum cuidado, que os filósofos pré-socráticos Heráclito e Parmênides já estavam dentro da gaveta da Teoria do Conhecimento, quando o primeiro defendia que os sentidos não nos enganam, que o conhecimento verdadeiro surge a partir dos sentidos, que o mundo concreto é o que contém verdade; e o segundo, que os sentidos são enganosos, que o conhecimento verdadeiro está situado na Razão, no pensar, no que ele chamava de Ser. Mas, o debate propriamente dito entre Racionalismo e Empirismo, dá-se na Idade Moderna. Trabalharemos aqui com dois filósofos que tomaram a frente da discussão no seu tempo, são eles: René Descartes e David Hume.
Em Teoria do Conhecimento, temos que considerar, como pressuposto, o seguinte: 
          O conhecimento se dá a partir de dois elementos essenciais:

                                                                 SUJEITO ---- OBJETO

O conhecimento exige um sujeito, que conhece, e um objeto, a ser conhecido. Geralmente chamam o sujeito de Sujeito do Conhecimento ou Sujeito Cognoscente, palavra essa que remete a gnose, ou seja, conhecimento.

Mas as perguntas são:
*De onde vem, como começam as ideias?
*Qual a origem do conhecimento?
Como respondem os dois filósofos acerca dessas questões?

René Descartes

Nascido na França, 31 de março de 1596 falecido em 11 de fevereiro de 1650, foi um filósofo, físico e matemático francês. Muitos especialistas afirmam que, a partir de Descartes, inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna. Para Descartes o conhecimento verdadeiro vem da Razão, do pensamento, da sabedoria. Tudo o que nos é externo é duvidoso, pois é temporal, passageiro, perecível e enganoso:
Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-o dos sentidos ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez” (Meditações Metafísicas. (Os Pensadores) São Paulo: Abril Cultural, 1983).

Então, a partir dessa reflexão, o filósofo francês vai defender que as ideias e o conhecimento verdadeiro têm origem na Razão. Temos ideias que nascem conosco, ideias essas que estruturam nossas percepções, nossas sensações efêmeras e desorganizadas. Portanto, é somente nessas ideias que existe a realidade imutável e, por isso, verdadeira.

David Hume

Nascido na Escócia, 7 de maio de 1711 – falecido em 25 de Agosto de 1776, foi um filósofo, historiador e ensaísta que se tornou célebre por seu empirismo radical. Ao lado de John Locke e George Berkeley, Hume compõe a famosa tríade do empirismo britânico.
Para Hume os sentidos e a experiência não são enganosos, muito pelo contrário, só através da experiência é que se pode ter a ideia de algo, de algum objeto, e só através dela é que se pode provar de forma objetiva algum pensamento. E todo o nosso pensamento é produto da experiência. Nascemos e no decorrer da vida vamos somando várias impressões externas e vamos criando ideias, pensamento e conhecimento. E só essa experiência dá firmeza e verdade aos pensamentos.
“Pelo termo impressão entendo, pois, todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos”.
“Entretanto, embora nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas ideias compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos”.
“Se analisamos nossos pensamentos ou ideias, por mais compostos ou sublimes que sejam, sempre verificamos que se reduzem a ideias tão simples como eram as cópias de sensações precedentes”.
“A ideia de Deus, significando o Ser infinitamente inteligente, sábio e bom, nasce da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito, quando aumentamos indefinidamente as qualidades de bondade e de sabedoria”.
(Investigação sobre o entendimento humano. (Os Pensadores) São Paulo: Abril Cultural, 1980).



II



Essa discussão terá fim após tais argumentações? Não. Tenha certeza que não terá fim. Aliás, não teve fim. E nem terá. Perto do fim da Modernidade, o filósofo alemão Immanuel Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura

tentou conjugar as duas correntes de pensamento dizendo que elas não devem se contrapor, mas, sim, se complementar. O fato é que é um jogo de pensamentos que sempre permeou e permeará o debate filosófico no que concerne à teoria do conhecimento.

Kant diz que, sim, o plano sensível é efêmero, mas que somente por ele é que podemos comprovar uma ideia, ou seja, só a partir da experiência é que podemos tornar um conhecimento objetivo. Ideias sem objetos que lhes correspondam são ideias vazias e objetos sem ideia que lhe classifique são objetos desconhecidos. A realidade exterior concreta não é ilusória nem duvidosa, são os juízos que acabam não correspondendo ao objeto. Por exemplo: se eu enuncio que uma flor é branca e depois ela ficar amarelada, não é a flor que é duvidosa ou falsa, ela apenas segue seu ciclo natural de envelhecimento, mas meu juízo acerca dela é que será falso. Portanto nada tem que ver com o objeto, ele não é uma ilusão. 
O sujeito carrega consigo em sua mente ideias que classificam aquilo que ele recebe como impressões exteriores. Tudo o que o sujeito sente que vem de fora é ordenado e classificado por ideias, conceitos, pensamentos. O conhecimento só tem validade objetiva quando se adequar a uma experiência que o comprove. Em sua primeira Crítica Kant afirma que quando o conhecimento tenta se elevar acima da sensibilidade, quando tenta fugir do campo da experiência, ele se torna um conhecimento dialético, ou seja, um conhecimento falso, ilusório, caindo numa lógica da ilusão, repleta de pensamentos vazios. Daí a importância da conjugação entre racionalismo e empirismo.